22h30
E se o romance não existisse? O que deveria fazer uma atriz com as cinco linhas do texto? A única solução seria ela completar o texto com a sua imaginação, só assim ela poderia começar a criar seu monólogo interior e suas falas internas.
Para dar ao leitor um exemplo mais simples possível da influência das "falas internas" sobre o texto da peça, vamos imaginar um diálogo entre um diretor e um ator. Suponhamos que o nosso diretor inseguro quanto a essência pisicológica de uma cena (ele aplica o método dele ao explicar o método!), procure resolver o problema através de várias experiências com seu ator.
1. Diretor: Procure pronunciar a palavra nuvem sem nenhum interesse, em tom branco branco, como numa simples leitura.
Ator raciocinando: o problema é deixar de ter interesse algum em pronunciar a palavra nuvem. O que estaria pensando o personagem nessa situação?
Ator falando internamente: Dizer a palavra nuvem? pra quê? Eu por mim não vejo nada de interessante nessa palavra, nem vejo razão alguma em dizê-la. Acho-a até muito chata, mas já que você pede, está bem: nuvem.
2. Diretor: agora diga essa palavra com desprezo:
Ator pensando: Para sentir desprezo por uma determinada nuvem eu devo acha-la muito insignificante. Mas sua insignificancia só pode ser constatada se comparada com a grandiosidade de uma outra nuvem. como será essa outra nuvem? (ele sempre termina o raciocínio com uma pergunta)
Ator falando internamente: Aquela nuvemzinha branca? ela impressiona você? Essa pequena mancha incolor? A nuvem realmente impressionante é a da cor de chumbo! Nuvem de tempestade! Ela rola pelo horizonte, ela esmaga a Terra! essa é que impressiona, agora aquela lá... ora grande coisa! Nuvem.
3- Diretor: Agora diga essa palavra com admiração:
Ator pensando: Eu só poderia achar alguma coisa bela em comparação com alguma coisa feia. O que seria? uma outra nuvem feia? è dificil imaginar. Então vou fazer um contraste entre a nuvem e o resto da paisagem, vou tentar.
Ator falando iternamente: A paisagem parecia tão monótona, com aquele céu azul tão pálido, sem nenhuma mancha. E derepente, ci atrás do telhado uma mancha branca que subia. .. e tudo mudou, veio a alegria, uma vontade de respirar de peito cheio. Ah como era bela aquela mancha! Nuvem!
4. Diretor: Agora diga essa palavra com horror, pânico.
ator pensando: o que é que poderia me causar pânico em relação a uma nuvem? Só se ela fosse inicio de uma tempestade. Não, não é sufuciente, deve ser mais do que isso, deve ser um tufão.
ator falando internamente: Olha lá, veja! Aquilo se aproximando rapidamente.. Olha vem quase tocando nas ondas do mar (já tem inclusive um onde). deve se ruma tempestade, não pior... deve ser um tufão. corram, fujam.. Nuvem!
Se você leitor, seguir esse raciocínio e usar as falas internas sugeridas, certamente, ao pronunciar a palavra nuvem irá satisfazer as exigencias do seu diretor.
E se o diretor pedir para falar a palavra nuvem com vontade de trepar? qual seria o pensamento do ator e qual seria a "fala interna" do ator?
Um dia fui procurar um amigo numa repartição que ele trabalhava. Na sala encontrei uma moça que , à minha pergunta se meu amigo tinha deixado algum recado para Eugênio, respondeu sorrindo. "Não senhor! Mas ele não demora, sente-se, por favor." depois de uma pausa "É verdade que os pequenos burgueses voltam em cartaz?" Lembro que fiz uma pequena pausa e respondi gentilmente: Sim senhora, no início do mês que vem.
Quando fiquei sozinho sentado naquela sala fiquei imaginando que o meu pequeno diálogo com a moça fosse cena de uma peça. qual seria meu "monólogo interior" caso eu fosse representar essa peça?
Antes de terminar esse capítulo, gostaria de propor aos meus leitores que repetissem o exercício do ator-diretor, substituindo a palavra nuvem por outras palavras, tais como: guerra, silêncio... procurem encontrar falas internas que permitam pronunciar essas palavras:
1. como simples leitura
2. com desprezo
3. com grande admiração
4. com horror
Para avaliar o resultado obtido, procurem a assistência de um colega.
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